A Pequena Vendedora de Fósforos – Hans Christian Andersen
março 25, 2008

A Pequena Vendedora de Fósforos

(Por Hans Christian Andersen 

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Fazia um frio atroz. Caía a neve. A noite descia – a última noite do ano.
No frio, no escuro, uma pobre menininha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.
Quando saiu de casa decerto trazia chinelos; mas de que adiantavam? Eram uns chinelos enormes, e viviam saindo dos pés. Por isso mesmo a menininha os perdera quando escorregara na estrada, quando uma carruagem conduzida por um cocheiro malcriado passou apressada, sacolejando.
E então a menininha caminhava de pés nus, já roxos de frio.
Dentro de um velho avental carregava algumas caixas de fósforos, e um feixinho deles na mão. Não conseguira vender um fósforo sequer naquele dia, por isso estava sem um níquel.
Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!
Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos , que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.
Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo.
Sim: nisso ela pensava!
Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.
Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão. O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.

Suas mãozinhas estavam duras de frio.
Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!
Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.
Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha…
Que luz maravilhosa!

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Na realidade parecia à menininha que ela estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa.
Como o fogo ardia! Como era confortável!
Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.

Riscou um segundo.
Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela se tornou transparente como um véu de gaze, e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado.
Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve,
e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar.
O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito! Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria. Acendeu outro fósforo, e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.

“Alguém está morrendo”, pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela cala, uma alma subia para Deus.

Ela riscou outro fósforo na parede; ele se acendeu e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.

– Vovó! – exclamou a criança.
– Oh! leva-me contigo!
Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar!
Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!

E rapidamente acendeu todo o feixe de fósforos, pois queria reter diante da vista sua querida vovó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. Sua avó nunca lhe parecera grande e tão bela. Tornou a menininha nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações – subindo para Deus.

Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre menininha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.
O sol do novo ano se levantou sobre um pequeno cadáver.
A criança lá ficou, inteiriçada, um feixe inteiro de fósforos queimados.

– Queria aquecer-se – diziam os passantes.

E ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó, no dia do Ano­ Novo.

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Chapeuzinho Vermelho
março 18, 2008

Chapeuzinho Vermelho

 

Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho, que tinha esse apelido pois desde pequenina gostava de usar chapéus e capas desta cor. Um dia, sua mãe pediu:

 

– Querida, sua avó está doente, por isso preparei aqueles doces, biscoitos, pãezinhos e frutas que estão na cestinha. Você poderia levar à casa dela?

 

– Claro, mamãe. A casa da vovó é bem pertinho!

 

– Mas, tome muito cuidado. Não converse com estranhos, não diga para onde vai, nem pare para nada. Vá pela estrada do rio, pois ouvi dizer que tem um lobo muito mau na estrada da floresta, devorando quem passa por lá.

 

– Está bem, mamãe, vou pela estrada do rio, e faço tudo direitinho! 

 

E assim foi. Ou quase, pois a menina foi juntando flores no cesto para a vovó, e se distraiu com as borboletas, saindo do caminho do rio, sem perceber. 

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Cantando e juntando flores, Chapeuzinho Vermelho nem reparou como o lobo estava perto…

 

 Ela nunca tinha visto um lobo antes, menos ainda um lobo mau. Levou um susto quando ouviu:

 

– Onde vai, linda menina?

 

– Vou à casa da vovó, que mora na primeira casa bem depois da curva do rio. E você, quem é?

 

O lobo respondeu:

 

– Sou um anjo da floresta, e estou aqui para preteger criancinhas como você.

 

– Ah! Que bom! Minha mãe disse para não conversar com estranhos, e também disse que tem um lobo mau andando por aqui.

 

– Que nada – respondeu o lobo – pode seguir tranqüila, que vou na frente retirando todo perigo que houver no caminho. Sempre ajuda conversar com o anjo da floresta.

 

 – Muito obrigada, seu anjo. Assim, mamãe nem precisa saber que errei o caminho, sem querer.

 

E o lobo respondeu:

 

– Este será nosso segredo para sempre…

 

E saiu correndo na frente, rindo e pensando:

 

(Aquela idiota não sabe de nada: vou jantar a vovozinha dela e ter a netinha de sobremesa … Uhmmm! Que delícia!)

 

Chegando à casa da vovó, Chapeuzinho bateu na porta:

 

– Vovó, sou eu, Chapeuzinho Vermelho!

 

– Pode entrar, minha netinha. Puxe o trinco, que a porta abre.

 

A menina pensou que a avó estivesse muito doente mesmo, para nem se levantar e abrir a porta. E falando com aquela voz tão estranha…

 

Chegou até a cama e viu que a vovó estava mesmo muito doente. Se não fosse a touquinha da vovó, os óculos da vovó, a colcha e a cama da vovó, ela pensaria que nem era a avó dela.

 

– Eu trouxe estas flores e os docinhos que a mamãe preparou. Quero que fique boa logo, vovó, e volte a ter sua voz de sempre.

 

 – Obridada, minha netinha (disse o lobo, disfarçando a voz de trovão).

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  Chapeuzinho não se conteve de curiosidade, e perguntou:

 

– Vovó, a senhora está tão diferente: por que esses olhos tão grandes?

 

– É prá te olhar melhor, minha netinha.

 

– Mas, vovó, por que esse nariz tão grande?

 

– É prá te cheirar melhor, minha netinha.

 

– Mas, vovó, por que essas mãos tão grandes?

 

– São para te acariciar melhor, minha netinha.

 

(A essa altura, o lobo já estava achando a brincadeira sem graça, querendo comer logo sua sobremesa. Aquela menina não parava de perguntar…)

– Mas, vovó, por que essa boca tão grande?

 

– Quer mesmo saber?

 

É prá te comer!!!!

 

– Uai! Socorro! É o lobo!

 

A menina saiu correndo e gritando, com o lobo correndo bem atrás dela, pertinho, quase conseguindo pegar.

 

Por sorte, um grupo de caçadores ia passando por ali bem na hora, e seus gritos chamaram sua atenção.

 

Ouviu-se um tiro, e o lobo caiu no chão, a um palmo da menina.Todos já iam comemorar, quando Chapeuzinho falou:

 

– Acho que o lobo devorou minha avozinha.

 

– Não se desespere, pequenina. Alguns lobos desta espécie engolem seu jantar inteirinho, sem ao menos mastigar. Acho que estou vendo movimento em sua barriga, vamos ver…

 

Com um enorme facão, o caçador abriu a barriga do lobo de cima abaixo, e de lá tirou a vovó inteirinha, vivinha.

 

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– Viva! Vovó!

 

E todos comemoraram a liberdade conquistada, até mesmo a vovó, que já não se lembrava mais de estar doente, caiu na farra.

 

 “O lobo mau já morreu. Agora tudo tem festa: posso caçar borboletas, posso brincar na floresta.”

 

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